A saudade que chega antes da partida
A estranha consciência de que o momento está se despedindo e tornando-se lembrança, enquanto ele ainda acontece
Eu nunca soube descrever aquela sensação que sentimos no final de uma festa legal, no final de um dia emocionante, no final das férias, ou no final de uma viagem que não queríamos que terminasse.
Não é tristeza, mas também não é alegria.
É algo que paira no ar, como se o tempo tivesse consciência de si mesmo e quisesse avisar que está prestes a mudar de forma.
Sempre me pego reparando nos sinais. A música começa a perder força, as vozes diminuem, os gestos ficam mais lentos. O lugar é o mesmo, as pessoas também, mas já não é igual. É como se todos, de maneira silenciosa, soubessem que estão vivendo as últimas linhas de um capítulo.
E, assim como num livro que não queremos terminar, tentamos alongar cada página, mesmo sabendo que o fim não vai esperar.
Talvez seja uma antecipação da ausência. Um tipo de saudade que começa antes mesmo de algo ir embora. Algumas línguas tentaram chegar perto (“saudade” em português, “hiraeth” em galês, “sehnsucht” em alemão) mas nenhuma captura por inteiro essa mistura de presença e despedida.
O momento do meio. A pagina que ainda não virou, mas está sendo movida.
Porque aqui o momento ainda existe, mas já está se transformando em lembrança, e nós sentimos essa transição como quem ouve um eco se apagar.
Há algo de sagrado nesse instante. Ele nos lembra, sem pressa, que nada nos pertence por muito tempo. Até as alegrias mais intensas são emprestadas. É um pacto silencioso com o tempo: viver exige saber entregar de volta.
Talvez por isso algumas pessoas tentem espantar a sensação com mais conversa, mais música, mais movimento, como se a intensidade pudesse atrasar o relógio. Outras, pelo contrário, recolhem-se para assistir ao fim com a dignidade de quem sabe que tudo precisa se encerrar.
Com o tempo, aprendi a não fugir. Esse desconforto é a prova de que algo foi bom o suficiente para deixar marca. Aquela festa especial com pessoas que amamos. Aquela viagem em família. Aquele dia ensolarado, com muita diversão. Aquelas férias especiais com ritmo lento e demorado. Aquela sensação de ver o pai recolhendo a piscina de ferro, desmontando ela e guardando para o próximo verão.
É como o momento em que o sol se põe atrás das montanhas e a luz se torna dourada por alguns minutos antes de desaparecer, você sabe que não vai durar, e justamente por isso, observa com mais atenção.
No fim de qualquer coisa boa, há sempre um pedaço de nós que fica e outro que segue. Entre esses dois, há um vazio que não é frio, mas também não é quente.
Um vazio bonito, que guarda o último sopro do que vivemos e que insiste em nos lembrar: por mais que tentemos, não existe jeito certo de dizer adeus.
Aquele momento que ainda não é saudade.
Mas será.



